Alexandre Faria reflete sobre a promessa e a presença

Promessa e presença. Há uma canção de Caetano Veloso que articula brilhantemente esses dois termos. Diz a letra: “a tua presença mantém sempre teso o arco da promessa”. A alusão bíblica é recorrente. Mas a maneira como o compositor a elabora parece bastante singular. Transgressora em relação ao senso comum que, até mesmo por inspiração religiosa (ou metafísica), concebe a vida como promessa do que está ausente. Ignora a evidência da presença e compreende a realidade através de ideias, projeções. Deus, essência, verdade, beleza etc. Promessas.

Outra canção famosa exemplifica bem isso: tudo viver a teu lado com o arco da promessa no azul pintado pra durar, diz o amor de índio de Beto Guedes. O arco da promessa garante a duração. É a promessa de quê? De futuro, de eternidade, de um tempo-espaço onde caiba o tudo a viver. Eis a fenda por onde a ausência se infiltra. Amar o sonho, mais que a vida. O amor mais que o amado. A presença vira objeto da promessa. Assim o é também no mito de Noé: veja o arco-íris e lembre-se do pacto divino. Depois desse, não espere mais dilúvios. O sinal, no entanto, não é presença, sequer manifestação, mas referência, índice. Conectivo entre um mundo a construir por humana e falha fábrica e promessa-esperança de que deus proverá pleno. Proveu? Ah, eterno futuro, como empobrece os nossos presentes!

Mas isso não é um problema das religiões apenas. Talvez só esteja nessa matriz metafísica a origem de um jeito de ser que o cotidiano evidencia. A dieta começa na segunda-feira; a vida melhor virá com a formatura; a felicidade, com a aposentadoria. Cada vez mais sinto que vivemos num mundo de pessoas gordas, tristes e frustradas. Odeiam o que fazem, mas o fazem pela promessa de um devir e se frustram porque (preciso dizer?) não virá. Não assim, como se espera, como se promete. Vida é acaso, imprevisível. Só tolos se precavêm “porque pode acontecer algum imprevisto”.

É aí que entra com potência os versos de Caetano. Naquela formulação a presença não é objeto da promessa, mas sua condição. A tua presença mantém sempre teso o arco da promessa. A carga de conotações físicas e eróticas do adjetivo, bem como todas as referências ao corpo em outras passagens da canção, realça a ideia de que a presença é da ordem dos sentidos físicos – pelos olhos boca narinas e orelhas. Mas diferente de um ritual canibalesco e macabro em que se come o corpo e se bebe o sangue para forjar o deus no meio de nós, a presença da canção é alegremente negra negra negra negra, de deuses que dançam, uma celebração tesa e tesuda. E sem ela não é possível qualquer promessa. Há nisso muito que se aprender. Sobre o amor, a arte dos encontros; sobre a saúde, o cuidado dos corpos; sobre o devir humano, a vida como uma forma mínima e digna de habitar o mundo. Sobre a revolução, outra forma de dar as mãos, de prender-se à vida, de olhar os companheiros. Sobre a Utopia, que nunca podemos achar que seja promessa de mundo melhor, mas maneira delicada de compreender e viver o aqui-agora.

Carpe diem!

Fonte: Desguardados | Imagem: Um conto

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s