Enquanto não chega a resposta do tempo

Acerca da literatura contemporânea brasileira, sobram especulações e faltam definições. Todos aguardam o tempo. Apesar de o universo acadêmico especular sobre a maturidade e a excelência de algumas obras, e não obstante as constantes apostas do mercado editorial e do meio jornalístico, a posteridade é um mistério. “Há, ao escrever – e não apenas viver – o presente algumas inseguranças quase insuportáveis”, adverte a pesquisadora Beatriz Resende, autora do livro Contemporâneos, que reúne breves análises da cena atual. “O temor da avaliação equivocada ou de se deixar levar por um entusiasmo fugaz quase sempre leva o crítico à prudência de deixar passar algum tempo antes de se ocupar do novo”, pontua Beatriz. Arriscando cometer injustiças, o escritor e pesquisador Nelson de Oliveira decidiu apontar nomes nessa paisagem ainda obscura. Organizador da antologia Geração Zero Zero – Fricções em rede, Oliveira tornou-se pioneiro ao focar a literatura contemporânea brasileira. Também disposta a redefinir um cenário, o local, Laura Assis criou, em 2011, o selo Aquela Editora, voltado para autores desconhecidos do grande público. Defensores do hoje, Laura e Oliveira encontram-se no encerramento do projeto Ave, Palavra, no próximo sábado, 1º de dezembro, às 15h, na livraria A Terceira Margem.

 

A Hora da Estrela

Para Nelson de Oliveira, alguém deve estar de olho na literatura que é produzida agora. Como não são muitas essas pessoas, tomou para si o papel, num projeto iniciado no início do século, com as antologias Geração 90 – Manuscritos de computador e Geração 90 – os transgressores, e que pretende que seja contínuo. Nascido em Guaíra, interior de São Paulo, Oliveira é doutor em Letras pela USP e atua como romancista, contista, cronista, ensaísta e professor universitário. Autor de quase duas dezenas de livros, iniciou sua carreira literária em 1989, quando foi selecionado para uma bolsa ao término de uma oficina ministrada pelo escritor João Silvério Trevisan. A bolsa resultou na primeira obra, Fábulas, vencedora do Prêmio Casa de las Americas e semente para os livros Os Saltitantes Seres da Lua (Relume Dumará, 1997), Naquela Época Tínhamos um Gato (Companhia das Letras, 1998); Treze (Ciência do Acidente, 1999) e Algum Lugar em Parte Alguma (Record, 2005). Desde 2004, Oliveira utiliza o pseudônimo Luiz Bras, que antes aparecia apenas em suas obras infantis e juvenis.

Apesar da vasta produção literária, premiada e reconhecida internacionalmente, o escritor tornou-se amplamente conhecido pela ousadia de suas antologias. Segundo Beatriz Resende, Oliveira “tem exercido papel fundamental na divulgação e promoção” dessa nova cena. “Jogando sua rede de tempos em tempos, vai colhendo novos autores, especialmente os que praticam a prosa de ficção e se destacam dentre os que surgem”, aponta Resende em artigo publicado no jornal O Globo. “A intenção é trabalhar na zona de confronto, fora da zona de conforto do leitor e da crítica mais acomodada”, alfinetou Oliveira em recente entrevista ao Caderno Prosa e Verso, d’O Globo. De acordo com ele, os jovens escritores nacionais têm produzido grandes trabalhos, que em nada devem aos escritores renomados e canonizados, o que justifica o tom de reverencia implícito em suas antologias. “O princípio editorial de toda antologia é a consagração”, confirma, na apresentação de Geração Zero Zero.

 

Independência e progresso

Numa rápida espiada no evento Eco – Performances Poéticas, que agita um bar da cidade nas primeiras quintas-feiras de cada mês, é possível perceber que a efervescência literária de Juiz de Fora não parou na década de 1980. Ainda há muito por ser escrito. Jovens se aglomeram, todos os meses, há mais de quatro anos, para ler e ouvir poesia. Laura Assis, uma das colaboradoras do evento, graduada e mestre em Letras pela Universidade Federal de Juiz de Fora, percebeu a força do movimento e criou o selo Aquela Editora, responsável por revelar novos nomes dessa cena. Independente, a marca já lançou três títulos: Vaca contemplativa em terreno baldio, de Anelise Freitas; No silêncio de um show de rock, de Larissa Andrioli; e Lágrima Palhaça, de Alexandre Faria. Para o próximo ano espera lançar Trovadores elétricos, de Anderson Pires. Segundo a produtora editorial e também escritora, “a literatura brasileira contemporânea merece muito mais espaço do que vem tendo nas editoras de grande e médio porte”.

Recorrendo a maneiras diferenciadas para a produção dos livros, que são, geralmente, curtos e impressos em formatos menores, o selo editorial percebeu na internet um caminho para a circulação, um dos maiores entraves para as pequenas editoras. Blogueira, autora do Página 29, Laura ainda não fez sua estreia em papel, mas carrega consigo a ousadia de acreditar e incentivar seus pares. Tarefa, que, de acordo com Nelson de Oliveira, vai além de um altruísmo, é paixão incondicional. “A literatura brasileira é uma das melhores do mundo”, derrete-se ele.

 

O projeto

Realizado pela Livraria A Terceira Margem, o projeto Ave, Palavra foi aprovado pelo edital de Programação Cultural de Livrarias, do Ministério da Cultura, e é financiado pelo Fundo Nacional de Cultura. Gratuito, o projeto desenvolveu, desde agosto, encontros com escritores representativos da literatura contemporânea brasileira. O Ave, Palavra tem o apoio do restaurante Mamma Roma, Hotel Serrano, Gráfica América e salão Personalité. Outras informações no site www.projetoavepalavra.wordpress.com

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