Há uma estética dominante na literatura brasileira contemporânea?

Nelson de Oliveira e Laura AssisO que é uma cadeira? O que é o planeta? O que é o Sistema Solar? Até a Ciência, que, das nossas práticas, é a mais categórica para definir o real, encontra-se em um impasse. Atualmente, não se tem uma definição clara do que seja a estrutura da matéria, do átomo, da energia. Com a Literatura não é diferente. Já não existe uma tribo hegemônica como havia na época do Concretismo ou da “Geração Mimeógrafo”.

“Quando me perguntam o que é literatura brasileira contemporânea, eu sempre busco uma analogia. Acho que ela é como o conto “O Aleph”, de [Jorge Luis] Borges: um ponto no espaço que reproduz todos os lugares simultaneamente”, declarou o escritor Nelson de Oliveira que participou, ao lado da  produtora editorial e também escritora, Laura Assis, do encerramento do projeto Ave, Palavra, no último sábado, dia 1º de dezembro.

Autor de, entre outros, Geração Zero Zero; fricções em rede (Língua Geral, 2011) – livro que inspirou o projeto – Nelson declarou que não existem parâmetros para qualificar a produção literária contemporânea. “Ninguém hoje, mesmo tendo mestrado e doutorado, consegue definir o que é qualidade literária como se conseguia nos séculos XIX, XVIII e XVII” e acrescentou: “Muitas expressões poéticas, ficcionais, filosóficas se acotovelam nas livrarias, nas galerias de arte, nos cinemas como apenas um fragmento do que seria de fato a arte; a literatura”.

Essa heterogeneidade artística se deve, também, ao avanço das tecnologias. Para Laura Assis, o substantivo que simboliza bem a produção literária atual é o “multiplicidade”. “As tecnologias facilitam muito a comunicação e a leitura. Hoje é muito fácil publicar um livro. Os blogs, as revistas virtuais, as próprias revistas físicas – a facilidade de publicação, enfim, abre espaço para vários autores de vários tipos diferentes”. Quem se interessa por literatura, logo, tem acesso a um vasto território de textos e autores.

 

Internet: “universo literário alternativo”

 

A Internet irá substituir o livro? Eis a pergunta que amiúde aparece em debates sobre literatura. Nelson afirmou categórico que a Internet é um universo literário alternativo que não ameaça o mercado editorial estabelecido. Para ele, o ato de ler está associado a abrir um livro, uma revista ou um jornal. Entretanto, o escritor declarou: “Tenho certeza que meus netos vão ter superado esse comportamento habitual do nosso tempo, da mesma forma que nós superamos o comportamento cultural dos nossos avós da era do rádio e dos folhetins”. O autor concluiu: “Quando me perguntam se o livro de papel vai acabar, eu não titubeio: ele não vai desaparecer, mas vai virar um produto de luxo, como o LP é hoje”.

O rótulo “autores de Internet” incomoda um pouco Laura, que além de escritora e professora, é idealizadora e produtora editorial do selo Aquela Editora. “A imprensa, principalmente, tende a mistificar muito essa coisa de ‘autores da Internet’”, revelou. “Tem uma geração vindo aí que não é mais autor de Internet; eles são autores dentro de um momento em que a Internet é inevitável”, explicou. A escritora afirmou também que alguns jovens autores chamam a atenção dos editores, não pela produção que veiculam na web, mas por escreverem com qualidade.

 

“O próprio autor tem que divulgar a sua obra”

 

Certa vez, Laura ouviu um poeta dizer, em uma entrevista, que no Brasil existem, no máximo, 300 leitores de poesia. O que a espantou foram os números: se no país há cerca de 3000 poetas, conclui-se que nem eles se leem. “Na cena de Juiz de Fora e do Rio, as pessoas lançam livros e tudo para aí”, lamentou-se a autora. “Se nós somos só 300 mesmo, vamos conversar entre nós”, propôs.

Foi buscando expandir o número de canais para a publicação e divulgação de obras literárias que Laura criou o selo Aquela Editora. “Às vezes, você acha que vai publicar um livro e que automaticamente vai ser lido. O autor precisa divulgar a sua obra”, refletiu. “Uma coisa que deu muito certo na editora foi sair com os livros. Na ‘cara de pau’, a gente faz vários lançamentos. Toda vez que lança vende”, contou Laura. Sortear livros em sites também foi citado como alternativa para as pequenas editoras.

Esse alcance exíguo da literatura no Brasil não assusta Nelson. “O Brasil não é um país letrado. O Brasil, de um modo geral, é um país audiovisual. A gente canta, toca, filma muito bem. As novelas brasileiras são referência no planeta inteiro. Por isso, eu acho curioso quando reclamam da performance da nossa literatura”, destacou o autor.

Para ele, quem começa a escrever não deve pensar em ganhar dinheiro, e sim, em ter uma experiência diferente. E, para aproximar a obra do leitor, o próprio autor deve divulgá-la. “Não espere encontrar o seu romance em todas as vitrines, em todas as grandes livrarias, resenhado na Folha [de S. Paulo]. Não vai acontecer”, alertou Nelson. “O próprio autor deve movimentar a sessão de autógrafos convidando amigos, amigos dos amigos, parentes dos parentes, amigos dos parentes e se satisfazer com esse movimento”, destacou.

 

Escrever dá dinheiro?

 

Jorge Amado, Érico Veríssimo, Paulo Coelho, Lya Luft, Dalton Trevisan são exemplos de escritores brasileiros que conseguiram/conseguem viver com o dinheiro gerado pelas obras que escreveram/escrevem. Todavia, a realidade da maioria dos nossos autores se difere da dos citados. Quando um escritor brasileiro vende 3000 exemplares em três anos, ele é tido como um escritor economicamente viável. “A gente ainda não tem mercado editorial. Ele ainda está se consolidando”, afirmou Nelson.

“Eu peço às pessoas que curtem literatura que façam isso por prazer”, contou o autor que agora utiliza o alterego, Luiz Bras, para assinar suas obras. “Essa situação [da dificuldade de divulgar e vender livros] não é de todo ruim, porque você tem a liberdade para criar o que quiser. Eu cheguei aos 45 anos um pouco cansado, repetindo algumas fórmulas. Decidi mudar radicalmente. A mudança teve aceitação positiva principalmente entre os veículos com os quais eu colaboro e nas oficinas literárias que ministro”, contou.

Ainda segundo Nelson (ou Luiz Bras?), autores de best-sellers são o tempo todo monitorados por agentes literários e editores. Essa ‘pressão’ não lhe agrada. “Para mim, literatura sempre foi uma alternativa à vida prática. Admiro autores que gastam as 24 horas do dia apenas com a sua literatura. Mas isso nunca fez sentido para mim. Meus heróis sempre foram pessoas maltratadas pela vida – O Kafka, o Fernando Pessoa, o Álvaro de Campos tiveram reconhecimento póstumo. A literatura era a substituta da religião para essas pessoas”, considerou.

Apesar de ver nascer o fenômeno da profissionalização da literatura, Nelson acredita que não sucumbirá a ele. “Acho bacanas as atividades periféricas da literatura: eu estar aqui participando deste evento [Ave, Palavra], a coordenação das oficinas, as resenhas e crônicas que escrevo. Tenho medo do dia em que eu tiver 24 horas para a literatura. Vai ser um porre, um tédio”, concluiu.

Após a conversa com os autores, mediada pelo jornalista e produtor do Ave, Palavra, Mauro Morais, Nelson autografou alguns de seus livros, como Geração Zero Zero:fricções em rede, para o público do evento.

Texto: Carolina Fellet | Foto: Lique Gávio

 

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